Assédio moral no relacionamento: você é vítima?

Insultos, ameaças, gritos, críticas, proibições e a ridicularização na frente de amigos e família. Submissão, autoestima baixa e até depressão caracterizam a mulher que vive uma situação de agressão moral em sua relação amorosa. A agressão conjugal contra a mulher, geralmente, é silenciosa e, muitas vezes, amigos e até a própria família não percebem as agressões por parte do parceiro. O problema é que essa agressão não deixa consequências físicas e, por isso, muitas mulheres se calam diante desses casos.

Os números impressionam. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada três mulheres no mundo é vítima de violência conjugal. Os dados foram publicados em novembro de 2014 na tradicional revista médica The Lance Net. O termo assédio moral apareceu como terminologia oficial em 1998 com a psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta de família Marie-France Hirigoyen. Ela, inclusive, publicou o livro “Harcèlement Moral: la violence perverse au quotidien” (traduzido como “Assédio Moral: a violência perversa no Cotidiano”).

Aqui no Brasil, o assunto já virou objeto de estudo da advogada e professora da Universidade Pontifícia Católica do Paraná, Tatiana Coutinho Pitta, que lançará o livro Protagonismo feminino: a necessária atuação estatal na proteção da mulher vítima da violência (Editora Boreal). Para Tatiana, que trabalhou no Programa de Proteção à Mulher Vítima de Violência da Cidade de Maringá, no Paraná, o assédio moral faz parte de algo que antecede a violência física e se configura por aniquilar a personalidade da mulher. “É muito mais profundo e vai muito mais além do que a violência psicológica. A mulher que é vítima não percebe que está nesta situação”, explica a advogada.

É um clima de constantes humilhações

Psicólogos explicam que as atitudes hostis são tantas, nestes casos, que o parceiro é capaz até de falar mal do desempenho sexual da parceira na frente dos outros. Aos poucos, essa violência psicológica aumenta e o amor próprio da mulher diminui. Essa agressão moral dentro da própria relação familiar, muitas vezes, antecede a violência física das quais muitas mulheres ainda são vítimas.

“A violência dentro da própria família acontece de forma costumeira e ardilosa, além de passar despercebida. É um clima de constantes humilhações. O agressor aumenta paulatinamente as ofensas e o menosprezo. O que vai causar muito sofrimento na vítima, resultando em doenças físicas e emocionais”, afirma a psicóloga clínica pela USP e terapeuta de casais, Triana Portal.

As agressões psicológicas afetam, inclusive, as próprias relações interpessoais e o desempenho no trabalho da mulher que é vítima do agressor moral. “Essa mulher pode apresentar tristeza, comportamento evitativo [de evitar as pessoas] e se afastar dos amigos, por exemplo. Além de perder paciência com os filhos facilmente e guardar para si o que acontece no contexto da família por vergonha ou medo”, ressalta a psicóloga.

Estratégia do parceiro é enfraquecer a mulher

“Na maioria das vezes, a mulher fica nervosa, estressada, vive com medo, esconde a situação dos familiares e amigos, e se torna insegura”, analisa o mestre em Psicologia pela USP, Thiago de Almeida. “Geralmente, um dos parceiros não percebe que está sendo assediado moralmente. Pode passar despercebido ou a parceira acreditar que o outro está estressado, nervoso e está descontando seu mau humor na relação”, diz o autor do livro “Ciúme e suas consequências para os relacionamentos amorosos”.

Especializado em relacionamentos, o psicoterapeuta Sergio Savian avalia que o assédio moral nas relações familiares nem sempre é claro porque se manifesta muito mais nas entonações, ou porque está mascarado num tom de brincadeira. “A estratégia da pessoa que assedia é enfraquecer seu par, detonar a autoestima do outro”, opina Savian.

O problema, conta Tatiana, é que essa mulher vítima é, muitas vezes, vista pelas outras pessoas como a agressora. Ela acaba sendo grosseira, hostil, justamente porque não percebe o que acontece com ela. “Como ela não tem poder de decisão, de autodeterminação, de não poder escolher quem são seus amigos, seu trabalho e suas roupas, fica deprimida, mal humorada, irritada e não percebe que isso acontece por causa da conduta do parceiro. Então, ela se sente culpada e os outros, como familiares e amigos, acham que a mulher é o problema, porque ela é a mal humorada”, desmistifica a advogada.

Lei Maria da Penha

Outro problema, na avaliação da advogada, é que a Lei Maria da Penha não traz nenhuma punição para o homem que comete esse tipo de violência. “As vítimas de violência psicológica, hoje, são menosprezadas pelo Direito. Se forem à delegacia vão perguntar: cadê a mancha roxa? Onde ele bateu? Quando ele tentou te matar? Eu defendo no meu livro que o assédio moral e a violência psicológica se tornem crimes. Porque aí abriremos as portas de todos os instrumentos de proteção à mulher”, relata a advogada Tatiana. Quer entender melhor o assunto?

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