Ingerir açúcar , engana bafômetro !

Ingerir açúcar após tomar vinho engana bafômetro? Não é verdade!

Vídeo tem viralizado nas redes. Especialistas consultados pelo G1 desmontam tese de internauta.

Circula pela internet um vídeo em que um homem que bebe vinho e depois ingere uma colher de açúcar diz ser possível zerar o bafômetro.

A intenção é mostrar que é possível enganar o aparelho após um ou mais goles de bebida alcoólica se a pessoa colocar açúcar na boca, o que não é verdade. “Vamos ver se é mito ou verdade. Bafômetro. Vinho”, afirma ele, durante a filmagem. Em um primeiro momento, após ele beber um gole, o resultado dá positivo. Tempos depois, ele coloca o açúcar e volta a fazer a medição, que dá negativa. “Daqui pra frente, bebam e carreguem 1 kg de açúcar dentro do carro”, conclui, após o teste.

 (Foto: Arte/G1) (Foto: Arte/G1)

(Foto: Arte/G1)

G1 consultou dois especialistas para explicar o “fenômeno” demonstrado no vídeo: o médico Mário Kondo, do Hospital Sírio-Libanês, professor da Unifesp e membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia, e a farmacêutica e toxicologista Cristiana Leslie Corrrêa, doutora em toxicologia pela Universidade de São Paulo e mestre em análises toxicológicas pela instituição.

Homem comemora quando bafômetro aponta zero (Foto: Reprodução/Youtube)Homem comemora quando bafômetro aponta zero (Foto: Reprodução/Youtube)

Homem comemora quando bafômetro aponta zero (Foto: Reprodução/Youtube)

Segundo Mário Kondo, quando alguém acaba de ingerir uma bebida alcoólica, ou mesmo um enxaguante bucal que contenha álcool, por alguns instantes o álcool que está na boca é medido pelo etilômetro. “Por isso, quando ele acaba de tomar o gole e faz a medição, dá [um índice] alto.”

Kondo diz que pouco depois, no entanto, o álcool da boca evapora e a medida seguinte, com ou sem acúcar, dá zero. “Um gole não é o suficiente para o álcool chegar na corrente sanguínea, sair pelo ar dos pulmões e ser medido. Até por causa desta situação, a lei faculta que o motorista que for ‘pego’ pode solicitar um re-teste 15 minutos depois, de forma que, se for álcool só na boca, o re-teste dá zero. Se for embriaguez, o resultado fica mantido”, diz o médico.

A farmacêutica e toxicologista Cristiana Leslie Corrrêa dá a mesma explicação. “A questão do álcool residual na boca é uma coisa muito frequente. Colocando açúcar, ele só fez com que esse álcool fosse desprendido mais rápido da boca e não ficasse com álcool residual. Por isso ele teve essa medida.”

A especialista explica ainda que o tipo de bafômetro usado no vídeo é simples, o que pode facilitar ainda mais o erro. “O que ele está usando é um bafômetro simples, cujo método de análise é feito provavelmente por oxidação química. Hoje em dia, a polícia tem bafômetros muito mais desenvolvidos, com infravermelho, que conseguem medir dentro dele só o etanol. No caso desses bafômetros mais simples, outras substâncias podem gerar uma corrente elétrica lá dentro e serem medidas como se fossem álcool, mesmo às vezes não sendo”, resume Cristiana, que diz que os bafômetros podem apresentar vários princípios de análise: oxidação química, oxidação eletroquímica e espectrometria de infravermelho.

G1 também enviou o vídeo à Polícia Rodoviária Federal (PRF), que costuma fazer blitze nas rodovias espalhadas pelo país. A PRF informa que desconhece meios de se burlar a fiscalização de alcoolemia por meio de etilômetros. Acrescenta ainda que o modelo usado no vídeo é diferente do usado pela PRF, que é homologado pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia). Até hoje, segundo a corporação, não há nenhum registro de que ele tenha sido burlado.

Lei seca

A chamada Lei Seca foi estabelecida em 2008, mudando o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e impondo mais rigor para quem dirige após beber. Em 2012, uma nova lei aumentou ainda mais o rigor das punições e a eficácia à fiscalização, acrescentando novas formas de produção de provas, como fotos, vídeos e testemunhas. Hoje, motoristas flagrados dirigindo embriagados ficam sujeitos a multa de R$ 2.934, suspensão do direito de dirigir por 12 meses e, nos casos mais graves, prisão. Em caso de reincidência dentro de 12 meses, a multa dobra.

A resolução 432/2013 diz que o motorista pode levar multa se o teste do etilômetro apontar medição igual ou superior a 0,05 miligrama de álcool por litro de sangue. A mesma resolução estabele que o motorista comete crime se o teste com etilômetro apontar medição igual ou superior a 0,34 miligrama de álcool por litro de ar alveolar expirado (0,34 mg/L).

É ou não é?’, seção de fact-checking (checagem de fatos) do G1, tem como objetivo conferir os discursos de políticos e outras personalidades públicas e atestar a veracidade de notícias e informações espalhadas pelas redes sociais e pela web. Sugestões podem ser enviadas pelo VC no G1, pelo Fale Conosco ou pelo Whatsapp/Viber, no telefone (11) 94200-4444, com a hashtag #eounaoe (caso prefira, a hashtag pode ser enviada logo após a mensagem também!)

fonte:G1