Profissão Palhaço: a história do Paquera

Portal lagartense foi conhecer a alegria do Circo Irmãos Power de cara limpa.

 

Quem já foi conferir o espetáculo do Circo Irmãos Power aprovou os seus palhaços. O primeiro a se apresentar e provocar o riso tanto das crianças quanto dos adultos é o palhaço Paquera. Sendo um dos mais conhecidos cômicos do meio circense nacional, Valdir Dutra, vem de uma terceira geração de circenses. Nasceu durante a temporada do circo de sua família em São José do Egito terra de cantadores nos sertão de Pernambuco.

“O circo em que eu nasci viajou por todo Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Meus pais só não tiveram condição e estrutura suficiente para chegar ao Sul e Sudeste. O circo não durou muito tempo, naquela época era difícil manter uma companhia, hoje tem muito incentivo do governo para que os circos não baixem a lona de vez, mas nos anos 60, 70 e 80 era dureza”, relembra Valdir.

Com o fim do Circo que resolveu estacionar com a família em Fortaleza ele não quis ficar e partiu em busca de emprego em outros circos. Ai começou a trajetória do palhaço Paquera por varias empresas. Ele se orgulha der feito parte da maior delas O “Garcia”, (1928- 2002). Trabalhou também no Pindorama , Águias Humanas (por sinal foi o primeiro circo que esse reporter assistiu na vida), Park Circus World (Circo em que trabalhei), Spázio, Stankovich entre outros.

Se considerarmos que Valdir pintou o rosto pela primeira vez com sete ou oito anos de idade – Nesse ano de 2015 está prestes a completar 60 anos – lá se vão mais de 50 anos na profissão.

O seu batismo foi igual a de muitos colegas

“Um dia faltou o palhaço no circo do pai e alguém tinha que assumir o papel e eu fui o escolhido, encarei o público, mesmo com toda a timidez que carrego comigo até hoje”.

Valdir admite que é preciso se aperfeiçoar, se renovar, mudar o que não agrada mais as novas gerações. Ele mesmo fez adaptação em vários squetchs tradicionais do repertório dos cômicos.

“Palhaço que se preza tem que ser repentista, em determinada cidade ou bairro em que o circo está armado, pode haver um gozador na plateia que tente atrapalhar e desafiar o raciocínio do artista e ele tem que estar preparado para respondê-lo e levar a plateia ao delírio”.

Por falar em reprises (comédias encenadas pelos palhaços) a preferida do paquera é “O Rádio” que ele geralmente apresenta como seu cartão de visita na estreia do Circo.

“É um numero envolvente. Na opinião do diretor artístico eu levaria todas a noites, mas tenho muitas cartas na manga, gosto de diversificar, encenar outros clássicos”.

Quando pedimos a ele que falasse sobre as mágoas a resposta também é uníssona.

“Todo mundo sabe que o circo é uma grande família. Mas que apesar de unida é muitas vezes traiçoeira. Assim como em qualquer empresa a convivência é difícil. Somos mal interpretados até quando estamos tentando ajudar um colega de nariz vermelho ou de outra especialidade. Muita gente não acredita, mas eu garanto que a lona, tem vida própria. Ela dá e tira da gente. Se um dono de circo decide que quer acabar com a companhia, é como se ele, O CIRCO, ouvisse as palavras, e da noite para o dia aquele mundo começa a acabar por si sem qualquer intervenção. É como se fosse um amor mal cuidado. Ou um condenado a morte que ouve sua sentença e tem a oportunidade de se suicidar.

Valdir que nasceu e se criou em circo tradicional vê como positiva a evolução do circo até mesmo os de médio porte que hoje tendem a se padronizar aos moldes do circo Du soleil. Inclusive o palhaço absorveu o novo estilo.

“Isso por um lado é benéfico. O palhaço passou a ter mais cuidado com o que vai dizer ou como vai gesticular para um a plateia de crianças. Nasci e me criei ouvindo e reproduzindo as piadas mais quentes que você possa imaginar. Tive que agir assim em diversos lugares, mas sabia o quanto era constrangedor para muitos pais, casais e autoridades que estavam ali na plateia. E essa mudança que o palhaço teve que se submeter a ponto de entrar mudo e sair calado proporcionou mais respeito para a família. De palavrões bastam as música de baixa qualidade que fazem tanto sucesso entre as crianças de hoje”, Lamenta o palhaço.

Mas e quanto à realidade do publico aqui de cima, do nordeste.

“É bom lembrar que o nordestino não curte esse gênero de pantomima (palhaço mudo) que é regra no sul desde sempre. Eles aqui preferem o cômico que leve entradas, (apresentações em que o palhaço interage com o locutor e com a plateia), ou aquelas comédias que envolvem sacanagem, coisas do tipo. No sul eles até que já conhecem parte desse repertório quente, devido ao trabalho do Tiririca, do Rapadura, do Facilita, e de outros palhaços nordestinos que não fugiram de suas origens e conduzem suas apresentações com piadas de todos os níveis”.

Paquera comentou sobre os palhaços que estão fazendo sucesso com DVD e se reproduzem em vários circos pais a fora?.

O pioneiro nesse tipo de apresentação foi o Beto palhaço “Xameguinho” filho do saudoso Arlindo “Arte Palácio”. Que já vendia fitas K7 com a gravação de suas paródias ou como se chamavam antigamente “caipiradas”. Eu tenho meu próprio repertório, e meu ritmo com esta modalidade de comédia, não quero criticar, mas francamente, hoje parece que tudo é uma coisa só, todo mundo procurou imitar o Beto. Eu também tenho meu show em DVD e não procuro imitar ninguém. As musicas originais das “caipiradas” eram próprias do circo, compostas por palhaços de outrora e não somente limitadas em paródias de sucessos.

Paquera chegou a sair do circo

“Fiquei fora desse mundo por duas vezes. Eu estava lutando com meu próprio Circo, certo dia, cansado, entrei em acordo com a patroa e vendemos tudo. Em uma dessas tentativas fiquei mais ou menos um ano fora. Mas Circo é um vicio poderoso, uma coisa que a gente não consegue se livrar. Ancorei meu barco em Cruz do Espírito Santo – PB e investi em um bar que oferecia serestas aos sábados e domingos. E nesse período vários circos armaram naquela cidade. Quando os donos sabiam que eu estava com o comércio ali tratavam de me procurar para me convencerem a pelo menos ir assistir o espetáculo e de repente aceitar o convite para trabalhar com eles. Prometia que ia pensar na proposta, mas ai o circo ia embora e eu não passava sequer na porta. Por falar em porta, eu que nasci em circo não suportei a condição que eu mesmo me impus. Sabe o que é acordar, abrir a porta de uma casa e ver a mesma vista ou melhor a mesma paisagem todos os dias? O leitor não vai entender. Mas eu explico: Pra quem nasceu em circo é simplesmente insuportável e eu tratei de voltar correndo”.

Até o cotidiano das cidades chegam a me incomodar. Não gosto de ficar mais de quinze dias em um lugar. Gostei da cidade e do público de Lagarto, mas não vejo a hora de pegar a estrada de novo.

Fato negativo que precisa ser observado pelas autoridades é que o circo já não está encontrando lugar para armar. Como todos já sabem a prefeitura de Lagarto teve que improvisar, ou seja,transferir provisoriamente o mercado de carnes para a praça do Tanque Grande que era desde sempre o espaço destinado ao grandes circos na cidade. Até que o novo mercado que está em reforma seja entregue. O circo Irmãos Power só pôde se instalar em Lagarto graças ao gesto do empresário e ex-prefeito Zezé Rocha que cedeu o estacionamento do seu parque de vaquejadas sem qualquer custo para os circenses.

“Lagarto teve essa feliz exceção. O caso do terreno daqui, espero que seja provisório mesmo. Mas a verdade é que as prefeituras já não estão dando o apoio necessário pra gente. O governo está fazendo a parte dele, são incentivos do ministério da cultura, são leis de incentivo e proteção, teve dono de circo pequeno que recebeu verba de até R$ 40 MIL para adquirir uma lona nova. Mas os prefeitos, não, estes estão praticamente fechando as cidades para o circo. Não tem mais terreno publico na maioria delas. Circo foi uma das primeiras diversões da humanidade e de repente a gente vê essa falta de apoio. Temos pulado várias cidades vizinhas por já não terem mais terreno”.

É bom salientar que o Circo não pode armar nos limites da zona Urbana o que compromete a bilheteria e repele por exemplo uma família que deseja ir ao espetáculo mas não tem como se locomover para tão longe.

Ainda sobre o governo, Paquera acha que já passou da hora dos Deputados Federais aprovarem uma lei que obrigue os donos de circo a formalizarem os contratos de trabalho, assinarem a carteira destes. Para que quando um artista decida sair, ou for demitido ele tenham os direitos legais de qualquer trabalhador e não fiquem a mercê somente dos acordos. Tanto Valdir quanto a sua companheira contribuem com o INSS para que amanhã quando já não puderem mais tirar o sustento do circo, tenham o direito ao beneficio.

Paquera com seus mais de cinquenta anos embaixo da lona com certeza viveu diversos dramas pessoais e rememorou três deles.

“Tive que trabalhar, em épocas diferentes da vida no mesmo momento em que um filho estava dando seus últimos suspiros em minha barraca. Outra vez era meu pai quem estava sendo velado enquanto eu fazia graça e já em outra ocasião perdi um companheiro de trabalho, mas tive que pintar o rosto horas depois.

“Essa triste recordação da morte do meu filho eu carrego a vida inteira. O espetáculo acabara de começar e ele que só tinha seis meses de vida começou a passar mal. Eu acompanhei até o momento que pude a dor e sofrimento de minha esposa, que colocou uma vela acesa para ele que ainda não era batizado segurasse. Chegou a hora de me apresentar. Eu era a atração principal do circo, não fui obrigado pelo dono, mas resolvi assim mesmo encarar o picadeiro diante daquela angustia.

Eu cantei as paródias, encenei comédias, mas sem tirar o pensamento do meu filhinho que estava indo embora logo ali do lado. Em dado momento diante das gargalhadas da plateia eu resolvi desabafar: – Preciso falar sério com vocês, enquanto vocês se divertem comigo, meu filho está morrendo alí! – O publico achou que era mais uma piada e desabou em gargalhadas. Aquilo me cortou o coração e eu só poderia fazer uma coisa: Como a lona do circo era praticamente colada com a lona da minha barraca eu corri para o canto e levantei as duas lonas de uma vez para mostrar para todo mundo o que estava acontecendo. Não ficou ninguém no circo, todos se retiraram imediatamente envergonhados por terem rido da minha dor. Meu filhinho só esperou eu entrar na barraca e olhar pra ele uma ultima vez e ai faleceu. Jamais esquecerei.

Outras dores também são inesquecíveis. Aqui mesmo em Lagarto há muitos anos, ocorreu o assassinato do meu amigo, palhaço Fumaçinha que fazia dupla comigo no Circo Arte Palácio. Ele foi morto por um policial aposentado na frente do Circo às 18h. E eu tive que me apresentar, prestei uma homenagem, colocando no canto do palco um objeto que ele deveria segurar pra mim.

Para finalizar paquera revela que seu maior sonho hoje é se aposentar

“O artista precisa reconhecer a hora de parar. Os mais novos estão chegando e por melhor que você seja considerado, seu ritmo não é o mesmo e os circos não vão deixar de contratar um artista jovem cheio de energia e vontade para ser o protagonista. Vou parar, e me juntar a minha mãe e meus irmãos que já deixaram o circo há tempos e hoje moram em Natal-RN. Valdir naturalmente tem filhos, genros e netos na profissão, uma das filhas é proprietária de um pequeno circo. Os filhos é que vão tocar a história pra frente. Pois o circo não pode parar”.

 

 

 

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